Servindo à Lua e o inferno @Furlan: a mando de Acácio Favacho, a vereadora Luany se abstém da votação de cassação do vice-prefeito acusado de corrupção Mario Neto

Servindo à Lua e o inferno @Furlan: a mando de Acácio Favacho, a vereadora Luany  se abstém da votação de cassação do vice-prefeito acusado de corrupção Mario Neto

Por Redação 

 

A vereadora Luany Favacho (MDB) surpreendeu o cenário político de Macapá na quinta-feira (23) ao ser a única parlamentar a se abster na votação da Câmara Municipal que confirmou a cassação do vice-prefeito afastado, Mário Rocha de Matos Neto (Podemos). A decisão solitária ocorreu durante uma sessão especial no plenário da CMM e representou o rompimento de um acordo político com o prefeito em exercício, Pedro DaLua (União), que esperava o apoio da emedebista para consolidar a saída definitiva do vice em meio às graves denúncias de desvio de R$ 70 milhões investigadas pela Polícia Federal, na Operação Paroxismo.

O silêncio de Luany no painel eletrônico foi o único tom destoante nos corredores do Legislativo. Até o início da sessão, o Palácio Laurindo Banha dava como certo o voto da parlamentar. Afinal, a relação entre a vereadora e a gestão de Pedro DaLua parecia cimentada por concessões administrativas de alto escalão. Recentemente, DaLua havia entregue a Luany o comando da Companhia de Iluminação Pública, Energia Sustentável e Saneamento de Macapá (CIPEMAC), uma das pastas mais estratégicas da capital, responsável por contratos vitais de modernização urbana e sustentabilidade.

O resultado final da votação — 12 votos pela cassação, sete contra e a abstenção solitária de Luany — selou o destino de Mário Neto, que já se encontrava afastado das funções por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). A sessão foi marcada por um clima de alta tensão, especialmente após o plenário rejeitar o parecer da Comissão Processante que, em uma tentativa de blindagem política, recomendava o arquivamento sumário do caso. Ao contrário do que previam os aliados de DaLua, a pressão popular e a gravidade das denúncias de corrupção e desvio de recursos públicos falaram mais alto para a maioria dos parlamentares. O desfecho da votação agora empurra Mário Neto para a inelegibilidade por um período de oito anos, além de fornecer novos elementos para o aprofundamento das investigações conduzidas pela Polícia Federal sobre o esquema de malversação de verbas no município.

Nos bastidores da Câmara, a movimentação de Luany Favacho foi lida como uma manobra calculada, típica do pragmatismo que rege o clã Favacho. Antes do início dos trabalhos, interlocutores da parlamentar haviam sinalizado ao Palácio Laurindo Banha que ela seguiria a orientação do Executivo e votaria pela cassação do mandato do vice-prefeito afastado. O "recuo" para a abstenção simples, no entanto, foi interpretado como uma forma de não se comprometer diretamente com um político carimbado por investigações federais, sem, contudo, votar abertamente contra os interesses do prefeito DaLua. Entretanto, para o Executivo, a neutralidade teve sabor de traição, especialmente considerando o peso da CIPEMAC. O órgão, entregue à influência de Luany, é responsável por áreas sensíveis e com alta visibilidade eleitoral, como a modernização do parque de iluminação pública com lâmpadas de LED, projetos de energia limpa e a fiscalização dos serviços de saneamento e água na capital.

A entrega da CIPEMAC à vereadora fazia parte de uma estratégia de governabilidade desenhada por Pedro DaLua para garantir uma base sólida no Legislativo. Ao entregar uma autarquia com orçamento e capilaridade técnica para uma indicação direta da emedebista, o prefeito buscava assegurar que votações críticas não sofressem sobressaltos. O episódio de quinta-feira demonstrou que a fidelidade do clã Favacho possui contornos fluidos e que o custo do apoio político pode ser mais alto do que as nomeações em diário oficial sugerem. A abstenção de Luany deixou o prefeito em exercício em uma posição de fragilidade, evidenciando que ele não detém o controle total sobre os parlamentares que compõem sua base, mesmo após ceder espaços estratégicos na administração municipal.

Para analistas da política amapaense, a atitude de Luany reforça a aplicação da "cartilha política" de sua família, liderada pelo casal Francisca e Amiraldo Favacho. Com um histórico que mistura cargos de relevo — ela ex-deputada estadual e ele ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) — e uma forte presença nos demais níveis da federação com os filhos Acácio (deputado federal) e Júnior Favacho (deputado estadual), o grupo é conhecido por priorizar a sobrevivência política e a manutenção de seus feudos de influência. Ao se abster, Luany evitou o desgaste de salvar um aliado envolvido em corrupção milionária, mas também deixou de ajudar o Executivo em um momento de necessidade, mantendo-se em uma zona cinzenta que permite negociações futuras com qualquer lado que saia vitorioso da crise atual.

O desfecho do processo contra Mário Neto repercute agora na defesa do ex-vice-prefeito, que ainda não confirmou se apresentará recurso judicial contra a decisão soberana da Câmara. Enquanto isso, o clima na PMM é de revisão de alianças. A "fatura" da CIPEMAC, que deveria ter sido paga com um voto "sim" de Luany Favacho à cassação de Neto, permanece em aberto e pode gerar novos capítulos de instabilidade na relação entre o Palácio Laurindo Banha, leia-se gestão Pedro DaLua, e o clã Favacho.