Justiça Eleitoral e Polícia Federal investigam fraudes em Macapá que podem tornar Furlan inelegível

Justiça Eleitoral e Polícia Federal investigam fraudes em Macapá que podem tornar Furlan inelegível

Por Redação 

 

A Justiça Eleitoral do Amapá e a Polícia Federal deflagraram uma ofensiva investigativa para apurar um complexo esquema de fraudes e abuso de poder que teria beneficiado a reeleição de Antônio Furlan (PSD) à Prefeitura de Macapá em outubro de 2024. As frentes de apuração, que ganharam robustez com a deflagração da Operação Doppelgänger e novas manifestações do Ministério Público Eleitoral (MPE), buscam confirmar indícios de falsidade ideológica em seções eleitorais, uso indevido da máquina pública e desvios de recursos para autopromoção. O cerco jurídico coloca em xeque a validade do pleito que conferiu ao gestor mais de 204 mil votos e ameaça o futuro político de Furlan, que já se projeta como pré-candidato ao governo estadual em meio a um histórico de afastamentos judiciais e denúncias de corrupção.

O desdobramento mais recente dessa crise institucional ocorreu nas primeiras horas da manhã de sexta-feira, 8 de maio de 2026, quando agentes federais percorreram as estradas de terra da comunidade rural do Lontra da Pedreira. O alvo era a residência de uma mesária que atuou nas últimas eleições. A Operação Doppelgänger — termo alemão que se refere a um “duplo fantasmagórico” — investiga uma suspeita inquietante: a de que “fantasmas” votaram no lugar de eleitores reais. De acordo com a PF, a própria Justiça Eleitoral detectou discrepâncias graves nos cadernos de votação, onde cidadãos que justificaram ausência constavam, simultaneamente, como tendo comparecido às urnas. A perícia inicial identificou um número atípico de votos realizados sem a utilização de biometria na mesma seção, sugerindo que alguém teria assinado e votado por diversas pessoas sob o olhar, ou talvez a conivência, de quem deveria fiscalizar o processo.

Essa peça do quebra-cabeça eleitoral não está isolada. Ela se soma a um robusto pedido do Ministério Público Eleitoral que tramita no Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP). O MPE solicita a cassação do mandato e a inelegibilidade por oito anos de Antônio Furlan e de seu vice, Mário Neto. O recurso contesta uma decisão anterior e detalha como a Secretaria Municipal de Comunicação teria sido transformada em um bunker de campanha, utilizando contratos públicos e verbas do contribuinte para financiar ataques a opositores e inflar a imagem do prefeito nas redes sociais. Para os promotores eleitorais, o desequilíbrio gerado pelo uso da máquina foi determinante para o resultado das urnas, configurando abuso de poder político e econômico em escala industrial.

A situação de Furlan é agravada pelo peso de investigações que já vinham corroendo sua gestão. Em março de 2026, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), o prefeito foi afastado do cargo por 60 dias em uma operação que investiga desvios milionários no Hospital Municipal de Macapá. A suspeita é de que licitações tenham sido fraudadas para favorecer empresas ligadas a aliados, drenando recursos vitais da saúde pública. “Estamos diante de um padrão de conduta que não se limita ao período eleitoral, mas que se estende por toda a administração, comprometendo a lisura das instituições”, afirmou uma fonte ligada às investigações que preferiu não se identificar.

O histórico de controvérsias do clã Furlan, no entanto, é mais antigo. Remonta às eleições de 2020, quando o então candidato já era alvo de inquéritos sobre compra de votos. Na época, as investigações apontaram o suposto envolvimento de seu irmão, o promotor de justiça João Paulo Furlan, em manobras para garantir o apoio de lideranças comunitárias através de benefícios ilícitos. Embora o prefeito negue veementemente todas as acusações, os documentos coletados pela PF e pelo MPE traçam uma linha do tempo onde as práticas de clientelismo e manipulação de dados parecem ser recorrentes.

Dentro do cenário político amapaense, Furlan adotou a estratégia do enfrentamento. Ao ser afastado pelo STF em março, o político não recuou; pelo contrário, utilizou o episódio para fortalecer sua narrativa de “perseguido político”. Em vídeos divulgados por seus aliados, ele se posiciona como uma vítima de um sistema que tenta impedir sua ascensão ao Palácio do Setentrião, sede do governo estadual. “Isso nada mais é do que medo da nossa força nas ruas. Estão tentando ganhar no tapetão o que não conseguem no voto”, declarou Furlan em uma de suas manifestações públicas antes do novo avanço da Polícia Federal nesta semana.

Contudo, para os investigadores, o argumento de perseguição esbarra na tecnicidade das provas. O caso do Lontra da Pedreira, por exemplo, é visto como uma evidência física e documental difícil de ser refutada apenas com retórica política. Se for comprovado que assinaturas foram falsificadas nos cadernos de frequência para inflar votações ou cobrir ausências, o crime de falsidade ideológica eleitoral poderá levar a punições severas, incluindo a anulação de votos daquela localidade e o indiciamento de todos os envolvidos, desde o mesário até os eventuais beneficiários finais do esquema.

A repercussão em Macapá é de uma cidade dividida entre o carisma popular do prefeito e a gravidade das revelações que surgem a cada semana. Enquanto a PF analisa os materiais apreendidos na casa da mesária e o TRE-AP avalia o pedido de inelegibilidade, o ambiente na Câmara Municipal é de cautela, com vereadores já discutindo os impactos de uma possível nova vacância no cargo. A “pirâmide de denúncias” que cerca Antônio Furlan agora atinge seu ápice: se as instituições confirmarem que a vontade popular foi manipulada por meios fraudulentos ou comprada com dinheiro público, o Amapá poderá assistir a uma das maiores reviravoltas jurídicas de sua história recente, alterando permanentemente o tabuleiro político para as eleições de 2026.