Vereadora Maraína Martins,aliada de Furlan e Vinícius Gurgel realizou homenagem ao empresário Rodrigo Moreira preso por corrupção pela PF

Vereadora Maraína Martins,aliada de Furlan e Vinícius Gurgel realizou homenagem ao empresário Rodrigo Moreira preso por corrupção pela PF
Empresário Rodrigo Moreira da Gama Engenharia e Santa Rita Engenharia ao lado da Vereadora Maraína Martins ligada ao Deputado Vinícius Gurgel

Por Redação 

 

A ironia que desfila pelos corredores da Câmara Municipal de Macapá não costuma pedir licença, mas, recentemente, ela se vestiu de gala para uma cerimônia que desafia a lógica das investigações federais e o bom senso republicano. Enquanto a Polícia Federal debruça-se sobre extratos, relatórios, vídeos de flagrantes e depoimentos que desenham um mapa da corrupção no coração da gestão do prefeito Antônio Furlan (MDB), o Legislativo municipal decidiu seguir o caminho inverso. Sob a indicação da vereadora Maraína Martins (REDE), o engenheiro Rodrigo de Queiroz Moreira, dono da Gama Engenharia Ltda e pivô de um escândalo que sangra os cofres da Prefeitura de Macapá, recebeu o título honorífico de Mérito Empresarial. A cena, capturada em vídeo e distribuída nas redes sociais como peça de propaganda, mostra a parlamentar de um partido que nacionalmente empunha a bandeira da ética e do desenvolvimento sustentável, mas que, na capital amapaense, parece mimetizar os vícios de uma política que não distingue cores ideológicas quando o assunto é a manutenção de alianças palacianas e propinas de valores estratosféricos.

Maraína, em seu terceiro mandato, aparece sorridente ao lado de Moreira. A fala é ensaiada, imersa naquele jargão burocrático que exalta a "contribuição para o desenvolvimento de Macapá". Para quem acompanha os bastidores da política local, a entrega da honraria soou como um estalo seco na face da opinião pública. Não se trata apenas de uma homenagem a um empresário, mas da validação institucional de um personagem que a Polícia Federal coloca no centro de um esquema que teria desviado R$ 9 milhões das obras do Hospital Geral e Maternidade Municipal (HGM). O contraste é pedagógico: de um lado, agentes federais descrevem manobras financeiras espúrias entre a Secretaria de Obras, a Secretaria de Finanças e o gabinete do prefeito; do outro, uma vereadora de esquerda — ao menos no registro partidário — reza fielmente pela cartilha de Furlan, cujo estilo de gestão é frequentemente associado ao pragmatismo bolsonarista de entregas rápidas e fiscalização frouxa.

As investigações que correm desde 2025 revelam que o projeto do HGM, que deveria ser o ápice da saúde municipal, transformou-se em um laboratório de irregularidades. A PF não mede as palavras em seus relatórios. Os investigadores traçam uma linha direta entre Moreira e o círculo íntimo de Furlan, chegando ao detalhe sórdido da entrega de dinheiro em espécie ao motorista pessoal do prefeito. A comparação feita pelos agentes é histórica e carrega o peso de um passado que o Brasil preferia esquecer: Rodrigo Moreira é apontado como o "PC Farias de Macapá". A analogia com o tesoureiro de Fernando Collor não é gratuita; ela evoca a figura do operador que transita com desenvoltura entre o público e o privado, transformando a máquina estatal em um balcão de negócios onde o retorno financeiro ilícito alimenta a perpetuação do poder.

O que se vê em Macapá é o rascunho de um colapso institucional. Quando uma casa legislativa ignora o monitoramento ostensivo de uma força policial sobre um indivíduo para lhe conferir uma das maiores honrarias da cidade, a mensagem enviada é a de que o crime, se bem relacionado, é digno de aplauso. Para o eleitorado de Maraína Martins, especialmente aquele que enxerga na Federação PSOL/REDE uma alternativa à velha política, o vídeo ao lado de Moreira é um deserto de coerência. A vereadora, ao exaltar a probidade de um homem sob suspeita severa, acaba por se tornar o escudo estético de uma gestão que se vê encurralada por evidências de superfaturamento e desvio de finalidade.

Enquanto isso, o Hospital Geral e Maternidade Municipal permanece como um monumento às promessas inacabadas e aos orçamentos inflados. O esquema investigado aponta que o ciclo de corrupção em Macapá não é um acidente, mas um sistema realimentado por obras de infraestrutura que servem como duto para o financiamento de projetos políticos. A PF vê nesse cenário um risco de metástase administrativa, onde as instituições de controle local parecem anestesiadas pelo prestígio ou pelo medo. A homenagem a Moreira, portanto, não é um ato isolado de gentileza política. É uma demonstração de força e de deboche. É o sistema dizendo que, independentemente do que as planilhas da Polícia Federal mostrem, em Macapá, o título de mérito ainda pertence àqueles que sabem como operar as engrenagens do poder, sob o olhar condescendente de quem deveria, por dever de ofício, fiscalizá-los. No tabuleiro de Furlan, as peças se movem com rapidez, e figuras como Maraína Martins garantem que, mesmo sob a sombra das algemas, o espetáculo da "boa gestão" continue a receber títulos honoríficos de Mérito Empresarial.